
Não sei se é ataque de maluquice, de cinismo ou de estupidez. Quem sabe as três coisas tenham se juntado num abraço insano, como diria o poeta. Confesso-me realmente impressionado que lideranças de partidos governistas e da oposição tenham se juntado num momento como este para debater a tal reforma política, que instituiria no país o voto em lista fechada e o financiamento público de campanha. Como já deixei claro aqui ontem, ataco essas propostas, boas apenas no papel, desde sempre. Neste blog, o primeiro texto a respeito foi publicado em novembro de 2006.
Depois de notícias em cascata sobre a lambança com as passagens aéreas e a verba indenizatória, os valentes pretendem reservar quase R$ 1 bilhão para financiar as campanhas eleitorais??? Andei ontem de táxi, e o motorista não teve dúvida: “O senhor viu? Agora querem que a gente pague a campanha pra eles. Cambada de sem-vergonhas”. Aconteceu exatamente assim. Ainda tentei dar uma de advogado do diabo, argumentando que o financiamento público talvez seja melhor, porque, assim, os políticos dependeriam menos de favores privados etc e tal. “E o senhor acha que eles não vão receber dinheiro por baixo do pano?” É, meu bom motorista, eu acho — não todos, é certo. Acho que aqueles que já recebem hoje continuarão a receber.
E essa é a tese essencialmente furada do tal financiamento público. Na prática, vai-se elevar o custo da eleição — em vez de barateá-lo —, e aqueles que, hoje em dia, já mandam a lei às favas continuarão a mandar. Para a população, restará a constatação, que nada tem de mentirosa, de que lhe meteram uma vez mais a mão no bolso. Acho incrível que, num momento como esse, os valentes tenham se reunido para defender o que, na prática, é indefensável.
Voto em lista
O voto em lista é outra piada de mau gosto na forma em que vem. Não faz sentido discutir o voto em lista fechada sem que se mude todo o sistema de representação, instituindo-se, por exemplo, o voto distrital misto, que vigora em muitos países. Parte dos deputados seria eleita por distritos, e, vá lá, uma outra parte até poderia vir de uma lista previamente definida, com o voto de legenda.
Mas não se faz isso da noite para o dia. Falar em aprovar o voto em lista, sem um prévio debate com os eleitores, é dessas bobagens que, de vez em quando, tomam conta do debate político sem que as lideranças se dêem conta da gravidade de suas propostas. Aumentar-se-ia enormemente o poder das burocracias partidárias — e isso significa, obviamente, diminuição do poder do eleitor. Como diria o ministro Ayres Britto, tratar-se-ia de uma solução de “menor extensão democrática”. Essa expressão criada por esse poeta, como vocês têm percebido, desperta em mim os instintos mais primitivos...
As excelências que perdoem a brutalidade desse povo e da imprensa, mas o fato é que tocar agora nesses dois assuntos, dada a realidade do Congresso, evidencia, mais uma vez, que os distintos ainda não se deram conta do buraco em que estão metidos. Houvesse um plebiscito — e os esquerdopatas sonham com isso —, é bem possível que a população votasse em favor da extinção do Congresso. E como reage o Legislativo? Propondo que os parlamentares escondam a cara, o que alijaria os eleitores um pouco mais das eleições, e arrancando um bilhãozinho dos cofres públicos para financiar campanha. É o doido cantando e tocando à beira do abismo. Recuem, excelências! Tentei consertar a barafunda em que se transformou o Congresso brasileiro, paralisado desde que o caso das passagens aéreas veio à tona.
Oposições
Ademais, o que fazem os oposicionistas nesta salada? Da forma como se queria encaminhar o voto em lista, os eleitores seriam chamados a escolher um partido. A maior legenda do país é o PT. Também deve ser a mais popular. Mais do que partido, trata-se de uma network composta por ONGs, sindicatos, igrejeiros de esquerda e os tais “movimentos sociais” — além de todo o aparato próprio de quem aparelha o estado. Adivinhem quem seria o principal beneficiário do sistema de voto em lista...
Dada a celeridade com que essa história tomou o Congresso, fica parecendo que está em curso um esforço para que se mude de assunto: saem de cenas as passagens aéreas, entra a reforma política. Cabe citar o clichê: a emenda é muito pior do que o soneto.
Por Reinaldo Azevedo

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