Está marcada para a tarde desta terça (14) a instalação da CPI da Petrobras. Deveria ter começado em maio. Mas, por ordem de Lula, o governo postergou.
No plano original, o Planalto tramara sepultar a CPI, negando-lhe o quorum mínimo para funcionar. Porém, a estratégia malogrou no STF.
O Supremo nem precisou se manifestar. Ouvido informalmente, o ministro Gilmar Mendes, presidente do tribunal, disse que a CPI é direito da minoria.
Ficou claro que o STF deferiria o mandado de segurança que o PSDB ameaçara protocolar. E José Sarney foi compelido a se antecipar.
Além de marcar data e hora, o presidente do Senado determinou, por escrito, que a CPI começasse a funcionar qualquer que fosse o quorum.
O governo vê-se agora diante de um problema que criou para si mesmo: empurrou a CPI da Petrobras para dentro do calendário eleitoral de 2010.
O prazo de funcionamento da CPI é de seis meses. Se houvesse começado em maio, como queria a oposição, acabaria em dezembro.
Instalada nesta terça, só começará a funcionar de fato em agosto, depois do recesso do meio de ano. No melhor cenário, arrasta-se até fevereiro do ano que vem.
Na pior hipótese, a oposição prorroga a encrenca por mais seis meses, jogando a CPI para agosto de 2010. Basta que obtenha o apoio de 27 senadores.
A sobreposição do calendário da CPI com a folhinha da eleição impõe riscos à ministra e presidenciável Dilma Rousseff.
A candidata de Lula é presidente do conselho de Administração da Petrobras. A descoberta de eventuais malfeitos pode afetar-lhe a imagem.
Para evitar que a nova CPI Lula lhe fuja ao controle, Lula cobra fidelidade do bloco partidário que dá suporte ao governo no Senado.
Tomado pelo peso numérico, o governo desce ao campo de batalha em condições de esmagar o inimigo. Vai à CPI com oito dos onze votos disponíveis.
O problema é que, no front do Senado, a supramacia numérica nem sempre se traduz em triunfo. Ali, o governismo flerta constantemente com a traição.
PMDB e PT, sócios majoritários do consórcio governista, comparecem à investigação com interesses distintos. Cada um quer proteger o seu pedaço na Petrobras.
Líder do PMDB, Renan Calheiros age para proteger Sérgio Machado, um ex-senador que acomodou na presidência da Transpetro, braço fluvial da estatal.
De resto, oferece escudo ao presidente do Senado, empurrado para a CPI graças à acusação de que a Fundação José Sarney desviou verbas de patrocínio da Petrobras.
O petismo prioriza a blindagem de nacos da estatal submetidos ao comando de diretores ligados ao PT.
Hoje, o governo receia mais o PMDB do que a oposição. Renan controla pelo menos três das oito votos da tropa oficial. É uma espécie de fiel da balança
Mantendo-se leal a Lula, aniquila os movimentos do PSDB e do DEM. Na hipótese de adotar o papel de Silvério, converte a rotina do Planalto num inferno.
A oposição vai protocolar já nesta terça um lote de mais de 15 requerimentos. Tratam da requisição de documentos e da convocação de depoimentos.
Só serão votados em agosto. Prevalecendo a lógica, o governo rejeita todos eles, repetindo uma tática já adotada na CPI das ONGs, que patina há dois anos.
Presidente do PSDB e membro da CPI, Sérgio Guerra (PE) acha que a mimetização da estratégia das ONGs não vai funcionar.
“Na CPI das ONGs, havia dificuldade de distinguir o que era importante. Com a Petrobras é diferente...”
“...Há muita informação, a vulnerabilidade da empresa é grande e a opinião pública está de olho”.
Dono de linguagem fácil, Lula planeja retomar o discurso que cola na oposição a pecha de “impatrióticos” e “irresponsáveis”.
Como antídoto, PSDB e DEM sustentarão a tese da investigação técnica. Dirão que agem não para prejudicar a Petrobras, mas para protegê-la dos “malfeitores”.
Como evidência da “seriedade de propósitos”, Sérgio Guerra diz que será preservado na investigação o diretor petista responsável pela exploração do pré-sal, cujas regras o governo apressou-se em divulgar.
“Todas as informações que nos chegam indicam que o doutor [Guilherme] Estrella [diretor de Exploração e Produção da Petrobras] é sério. Não nos interessa investigá-lo”, diz Sérgio Guerra.
Inicialmente, vai à mira da oposição outro petista: Wilson Santarosa, gerente-executivo de Marketing da Petrobras.
Pretende-se esquadrinhar também a gestão de Paulo Roberto Costa, diretor de Abastecimento, um apadrinhado do PP.
“Hoje, esse diretor de Abastecimento atende a interesses pluripartidários”, diz Sérgio Guerra.
Confiante, Lula acha que a CPI, a despeito do barulho, dará em nada. O último a fazer um vaticínio semelhante foi o ex-senador Jorge Bornhausen (DEM-SC).
Na pele de coordenador político do governo Collor, Bornhausen previra o fracasso da CPI do PC Farias. Deu no impeachment do presidente.
Fernando Collor, aliás, integra a CPI da Petrobras como representante do PTB. No gogó, diz que não tomará parte de nenhuma “tropa de choque” governista.
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