Depoimentos colhidos pelo Ministério Público Federal em inquérito que apura desvio de verba de convênios da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) no Tocantins indicam que o esquema foi usado para beneficiar campanhas eleitorais e teve a participação do secretário estadual de Infraestrutura, José Edmar Brito Miranda, pai do governador Marcelo Miranda (PMDB).
O peemedebista teve seu mandato cassado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) no último dia 26 por abuso de poder político nas eleições de 2006, mas continuará no cargo até o julgamento dos recursos.
Ouvido pelo Ministério Público no dia 15 de junho, o engenheiro Francisco de Paula Vitor Moreira afirmou que entre os beneficiados estariam "candidatos do PT e de outras agremiações" indicadas por João dos Reis Ribeiro Barros, ex-coordenador regional da Funasa no Tocantins, afastado do cargo pela Justiça após a descoberta das fraudes.
Preso em 27 de maio durante a Operação Covil, da Polícia Federal, Moreira é apontado pelo Ministério Público como o articulador do grupo. Sua defesa nega.
O engenheiro disse ainda que o deputado federal Osvaldo Reis (PMDB-TO) recebeu R$ 700 mil em 2008 de uma empreiteira para beneficiá-la na disputa de uma licitação. O advogado de Barros, o assessor do deputado e o secretário Miranda negaram as práticas.
Conforme cópias dos relatos ao Ministério Público, aos quais a Folha teve acesso, o esquema começava a ser definido na discussão das emendas de bancada dos congressistas do Tocantins.
Moreira afirmou, em seu depoimento, que Barros lhe disse que Osvaldo Reis incluiu nos R$ 30 milhões das emendas obras de água e esgoto nas cidades de Pedro Afonso e Bom Jesus do Tocantins, indicadas pelo pai do governador, em 2008.
Ainda segundo o depoimento, Reis e Brito Miranda definiriam as empresas que ganhariam as licitações das obras.
Ele afirmou também que "o acerto incluía o pagamento de 5% para o deputado autor da emenda, 5% ao prefeito e 2% para João dos Reis [Barros]".
Em maio, na Operação Covil, a PF vasculhou salas e computadores da secretaria dirigida pelo pai do governador.
Em um ano de investigação, a Controladoria Geral da União e o Ministério Público detectaram desvios de quase R$ 4 milhões nas obras.
Desse total, R$ 2.835.427,84 ocorreram somente nos convênios de Pedro Afonso e Bom Jesus, onde foram constatados sobrepreços e serviços superfaturados e não realizados, conforme ação civil pública movida pela Procuradoria.
Outro que depôs ao Ministério Público, o engenheiro Lázaro Harleu Assis, preso na mesma operação, disse ter denunciado que as obras estavam sendo executadas sem "funcionalidade, visando apenas serviços mais lucrativos para o consórcio".
O procurador da República Rodrigo Luiz Bernardo Santos, responsável pelas investigações, não quis falar sobre o caso alegando segredo de Justiça.
No depoimento, Moreira disse que Barros "tem um acordo com Osvaldo Reis", que teria indicado o ex-coordenador para o cargo, o que é negado pela assessoria do deputado.
"Quando este [Osvaldo], de alguma forma, consegue, via emenda parlamentar, alocar dinheiro para a Funasa, João dos Reis [Barros] entra em contato com o prefeito do município contemplado, informando que existe uma empresa idônea, capaz e que deveria ser a contratada", disse.
Ao Ministério Público, Moreira afirmou ainda que Barros exigia 2% do valor dos contratos que as empresas mantinham com a Funasa. Para uma empreiteira, disse o engenheiro, o ex-coordenador pediu R$ 500 mil "visando a construção de base eleitoral para eleições de 2010". Ele disse ainda que um empresário do interior do Estado se negou a pagar propina e foi boicotado nas licitações.
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